Ferrara entrou no meu roteiro por um motivo muito claro: o Castello Estense.

Entre as tipologias arquitetônicas que mais me fascinam estão os castelos. Gosto da imponência das construções, mas principalmente das histórias escondidas entre muralhas, torres, passagens e antigas salas. Por isso, cidades medievais sempre despertam minha curiosidade.
Conheci Ferrara pela primeira vez em setembro de 2021, durante um passeio de um dia. Saímos de Adria, onde eu morava na época, e chegamos de trem. O castelo foi o grande motivo da viagem, mas, ao caminhar pelo centro histórico, descobri uma cidade que também merece ser observada além de seu monumento mais famoso.
Informações rápidas
- Local: Ferrara, Emilia-Romagna, Itália
- Quando fui: setembro de 2021
- Quanto tempo fiquei: um dia
- Como chegamos: de trem, saindo de Adria
- Como nos deslocamos: a pé
- Principal motivo da viagem: conhecer o Castello Estense
- Voltaria: sim — e já voltei outras vezes
A história desse lugar
Ferrara cresceu em uma região ligada ao rio Po e começou a ganhar importância ainda durante a Idade Média. A partir de 1264, a família d’Este passou a dominar a vida política da cidade e permaneceu no poder por mais de três séculos.
Durante esse período, Ferrara deixou de ser apenas um centro medieval e se transformou em uma das cortes mais importantes do Renascimento italiano. Artistas, arquitetos, escritores e intelectuais passaram pela cidade, que se tornou um importante centro cultural.
Mas a construção mais conhecida de Ferrara nasceu em um momento de medo.
Em 1385, a população, enfraquecida pela fome e insatisfeita com os governantes, iniciou uma revolta. Sentindo que sua família estava ameaçada, Niccolò II d’Este ordenou a construção de uma fortaleza capaz de protegê-los — não de um exército estrangeiro, mas dos próprios habitantes da cidade.
A obra foi confiada ao arquiteto e engenheiro militar Bartolino da Novara e começou em 29 de setembro de 1385, dia de São Miguel. Por isso, o castelo também recebeu o nome de Castello di San Michele. Segundo a história oficial do Castello Estense, sua construção marcou a consolidação do poder político e militar dos Este.
Com o passar dos séculos, o risco de novas revoltas diminuiu e a fortaleza começou a mudar. O edifício defensivo, cercado por água e protegido por pontes levadiças, transformou-se em uma residência da corte. Surgiram apartamentos decorados, varandas de mármore, jardins suspensos e salas destinadas à vida política e aos entretenimentos da família.
Ferrara também passou por uma das experiências urbanísticas mais importantes do Renascimento. Em 1492, o duque Ercole I d’Este encarregou o arquiteto Biagio Rossetti de ampliar e reorganizar a cidade. O projeto, conhecido como Addizione Erculea, praticamente dobrou a área urbana e aplicou novos princípios de perspectiva, proporção e organização dos espaços.
A intervenção foi tão inovadora que Ferrara é frequentemente apresentada como uma das primeiras cidades modernas da Europa. A UNESCO destaca que esse planejamento marcou o nascimento do urbanismo moderno e influenciou o desenvolvimento de outras cidades nos séculos seguintes. O centro histórico entrou para a lista do Patrimônio Mundial em 1995. UNESCO – Ferrara, cidade do Renascimento.
Castello Estense: o protagonista da viagem
O Castello Estense está no centro da cidade, cercado por um fosso ainda cheio de água. Sua planta quadrada, as quatro torres, as paredes de tijolos e as antigas pontes levadiças preservam a aparência de uma verdadeira fortaleza medieval.
Por fora, o castelo já impressiona. Mas vale a pena reservar tempo para conhecer o interior, porque o percurso mostra as diferentes vidas que esse edifício teve: fortaleza defensiva, residência da corte, sede do poder e, atualmente, museu.
Entre os destaques estão:
- As antigas cozinhas e salas góticas;
- Os apartamentos decorados da família d’Este;
- O Giardino degli Aranci, um jardim suspenso usado pela corte;
- As salas com tetos pintados e cenas mitológicas;
- As antigas prisões;
- A subida à Torre dei Leoni, com vista panorâmica de Ferrara.
As prisões guardam algumas das histórias mais dramáticas do castelo. Uma delas é a de Ugo d’Este e Parisina Malatesta. Parisina era esposa de Niccolò III, mas se apaixonou por Ugo, filho do marquês. Quando o relacionamento foi descoberto, os dois foram presos, julgados e decapitados em 1425. Parisina tinha cerca de 20 anos e Ugo, 19.
Outra cela foi ocupada por Giulio d’Este, envolvido em uma conspiração contra o irmão, o duque Alfonso I. Giulio permaneceu preso durante 53 anos e só foi libertado aos 81. Essas histórias e os ambientes do percurso estão descritos no site turístico oficial de Ferrara.

Como chegar
De trem
O trem é uma das maneiras mais práticas de visitar Ferrara, especialmente para quem pretende passar apenas um dia.
Na minha primeira visita, saímos de Adria e chegamos à estação ferroviária de Ferrara. Da estação até o Castello Estense são aproximadamente 20 minutos de caminhada. O percurso é praticamente plano e já permite observar a transição entre a cidade atual e o centro histórico.
Ferrara possui conexões ferroviárias com cidades como Bologna, Padova e Venezia. Dependendo do ponto de partida, pode ser necessário fazer uma troca.
De carro
Ferrara está próxima da autoestrada A13 Bologna–Padova e pode ser acessada pelas saídas Ferrara Nord ou Ferrara Sud.
Quem chega de carro deve ficar atento à ZTL, a zona de tráfego limitado do centro histórico. O melhor é escolher um estacionamento fora da área restrita e continuar o passeio a pé. As orientações oficiais de acesso estão disponíveis na página Como chegar ao Castello Estense.
De avião
O aeroporto mais próximo é o Aeroporto Guglielmo Marconi, em Bologna. A partir de Bologna, é possível continuar de trem ou utilizar os serviços de transporte rodoviário até Ferrara.
O que ver e fazer
1. Visitar o Castello Estense
É a atração principal e o lugar ao qual eu dedicaria mais tempo. Além de percorrer os ambientes internos, não deixe de subir à torre para observar Ferrara do alto. A vista ajuda a compreender a relação entre o centro medieval e os bairros renascentistas.
2. Piazza Savonarola
Localizada ao lado do castelo, é um bom ponto para observar sua fachada e o encontro entre alguns dos edifícios mais importantes do centro.
3. Palazzo Municipale
Antes da transformação do castelo em residência, o Palazzo Municipale foi a principal moradia da família d’Este. Sua construção começou no século XIII, e o edifício conserva um pátio com uma bela escadaria monumental coberta.
4. Cattedrale di San Giorgio
A Catedral de Ferrara começou a ser construída no século XII. Sua fachada reúne elementos românicos na parte inferior e góticos na parte superior, contando diferentes fases da arquitetura da cidade em uma única composição.
Na lateral voltada para a Piazza Trento e Trieste está a Loggia dei Merciai, ocupada por lojas desde a Idade Média. O campanário renascentista, revestido em mármore rosa e branco, é atribuído a Leon Battista Alberti. Informações oficiais da Catedral de Ferrara.
5. Piazza Trento e Trieste
Uma praça ampla e elegante, localizada junto à Catedral. É um dos espaços mais movimentados do centro e um bom lugar para fazer uma pausa durante o roteiro.
6. Via delle Volte
Uma das ruas mais características de Ferrara. Seu nome vem das passagens elevadas e dos arcos que atravessam a rua, conectando antigas casas, oficinas e depósitos.
A via conserva edifícios dos séculos XIV e XV e ajuda a imaginar como era a vida na cidade medieval. Segundo o site oficial de turismo de Ferrara, essa região acompanhava um antigo eixo de desenvolvimento urbano ligado às margens do rio Po.
7. Antigo gueto judaico
As ruas Via Mazzini, Via Vignatagliata e Via Vittoria fizeram parte do antigo bairro judaico. A região conserva edifícios de tijolos, pátios, passagens e marcas de uma comunidade que teve grande importância na história de Ferrara.
8. Corso Ercole I d’Este
Essa avenida faz parte da Addizione Erculea, o grande projeto renascentista de Biagio Rossetti. É uma rua ampla, tranquila e cercada por palácios históricos.
9. Palazzo dei Diamanti
Seu nome vem dos milhares de blocos de mármore esculpidos em forma de diamante que revestem a fachada. É um dos melhores exemplos da arquitetura renascentista de Ferrara e uma parada especialmente interessante para quem gosta de arquitetura.
10. As muralhas de Ferrara
Ferrara ainda preserva cerca de nove quilômetros de muralhas. É possível caminhar ou pedalar por diferentes trechos, cercados por áreas verdes. Para um passeio de apenas um dia, talvez não seja possível percorrê-las por completo, mas vale guardar a experiência para uma próxima visita. Roteiro oficial das muralhas de Ferrara.
Roteiro sugerido

Nossa experiência
Ferrara foi uma escolha motivada pelo castelo. Como arquiteta e apaixonada por cidades medievais, eu queria conhecer de perto uma construção que ainda conservasse suas torres, seu fosso e sua presença defensiva.
Visitamos todo o percurso aberto ao público, atravessamos os ambientes internos e subimos até o ponto panorâmico da torre. Do alto, conseguimos observar os telhados, as ruas e a dimensão do centro histórico. É um daqueles momentos em que o edifício deixa de ser apenas o objeto visitado e passa a explicar a cidade ao redor.
Depois da visita, almoçamos em um restaurante de frente para o castelo. Pedi uma bela taça de vinho e fiquei admirando aquela construção que havia sido o principal motivo da viagem. Foi uma pausa simples, mas que guardo com muito carinho: o castelo continuava diante de nós, refletido na água e fazendo parte do almoço.
Também caminhamos pelo centro histórico, observando as praças, as ruas e os edifícios antigos. O Castello Estense foi um dos castelos mais bonitos e bem preservados que conhecemos, mas Ferrara conseguiu ir além da expectativa inicial.
Essa foi apenas a minha primeira visita. Voltei outras vezes e ainda voltaria novamente, porque a cidade possui camadas que dificilmente cabem em um único dia.
Curiosidades sobre Ferrara
- O Castello Estense foi construído para proteger a família governante de uma revolta da própria população.
- Uma passagem elevada ligava o castelo ao antigo palácio da família d’Este, hoje Palazzo Municipale.
- O castelo começou como uma fortaleza militar e, posteriormente, transformou-se em uma luxuosa residência renascentista.
- Ferrara é considerada uma referência no nascimento do urbanismo moderno.
- A cidade conserva a convivência entre dois traçados: o centro medieval, com ruas mais estreitas e irregulares, e a expansão renascentista, marcada por vias amplas e organizadas.
- As celas de Ugo, Parisina e Giulio d’Este preservam algumas das histórias mais sombrias da família.
O que experimentar em Ferrara
Na minha primeira visita, o que ficou marcado foi a taça de vinho tomada diante do castelo. Mas Ferrara possui uma gastronomia muito própria, ligada à história da corte Estense.
Entre as especialidades da região estão:
- Cappellacci di zucca: massa recheada com abóbora;
- Salama da sugo: embutido de sabor intenso, geralmente servido com purê;
- Pasticcio ferrarese: preparação que combina massa, molho e uma cobertura levemente adocicada;
- Coppia ferrarese: pão crocante de formato trançado;
- Pampepato ou Pampapato: doce coberto com chocolate amargo.
Esses pratos fazem parte das tradições apresentadas pelo portal oficial de turismo de Ferrara.
Dicas úteis
- Reserve pelo menos duas horas para conhecer o interior do castelo com calma.
- A subida à torre exige um pouco mais de disposição, mas a vista compensa.
- A reserva antecipada é recomendada, principalmente em fins de semana e feriados.
- Atualmente, o castelo funciona das 10h às 18h e fecha às terças-feiras. O ingresso inteiro custa €12, com suplemento de €2 para a Torre dei Leoni. Consulte sempre o site oficial do Castello Estense, pois horários e valores podem mudar.
- Ferrara é uma cidade plana e muito agradável para conhecer a pé.
- Se quiser visitar áreas mais afastadas ou percorrer as muralhas, alugar uma bicicleta pode ser uma boa opção.
- Quem chega de carro deve verificar os limites da ZTL antes de entrar no centro.
- Na Catedral, confira os horários religiosos antes da visita.
- Em setembro, encontramos um clima agradável para caminhar e passar o dia na cidade.
- Na minha primeira visita, ainda não estávamos com cachorro. Atualmente, o castelo informa que cães pequenos podem entrar no colo ou em uma bolsa de transporte; já a Catedral não permite a entrada de cães.
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