Sirmione – Itália

Um castelo cercado pelo Lago di Garda, ruas medievais, pequenas praias e uma cidade inteira que parece ter saído de um conto.

Sirmione entrou no nosso roteiro por um motivo muito parecido com Ferrara: o castelo.

Sempre fui apaixonada por castelos, por suas arquiteturas e, principalmente, pelas histórias preservadas entre muralhas, torres e pontes levadiças. Quando descobri que existia um castelo construído praticamente sobre as águas do Lago di Garda, não precisei de muitos outros motivos para querer conhecê-lo.

Nossa primeira visita aconteceu em novembro de 2021. O outono já estava chegando ao fim e eu começava a sentir o frio que marcaria meu primeiro inverno europeu. Em Sirmione, cercada pela água do lago, a sensação térmica parecia ainda mais baixa.

Mas bastou atravessar a entrada do centro histórico para entender por que aquele lugar é tão conhecido. O Castello Scaligero pode até ser o grande cartão-postal, mas Sirmione não se resume a ele: depois da fortaleza existe uma cidade inteira, repleta de ruas estreitas, casas antigas, restaurantes, pequenas praças, jardins, praias e diferentes vistas do Lago di Garda.

Foi para ver um castelo que chegamos ali. Encontramos um lugar mágico ao qual voltaríamos outras vezes.

Informações rápidas

  • Local: Sirmione, província de Brescia, Lombardia
  • Região: sul do Lago di Garda
  • Data da primeira visita: novembro de 2021
  • Duração: um dia
  • Como chegamos: de carro
  • Principal motivo da visita: conhecer o Castello Scaligero
  • Voltamos outras vezes: sim
  • Voltaríamos: sem dúvida

A história desse lugar

A localização de Sirmione ajuda a explicar sua importância. A cidade ocupa uma península estreita que avança cerca de quatro quilômetros sobre a parte sul do Lago di Garda. Cercada pela água em quase todos os lados, a área oferecia proteção natural, controle visual e uma posição estratégica.

A presença humana na região é muito mais antiga do que o castelo. Há vestígios de ocupações pré-históricas, mas foi durante o período romano que Sirmione ganhou especial importância.

Famílias ricas construíram residências na península para aproveitar o clima, a paisagem e as águas da região. O maior testemunho desse período é o sítio arqueológico conhecido como Grotte di Catullo, localizado na extremidade norte da península.

Apesar do nome, o lugar não é uma gruta. Trata-se das ruínas de uma enorme villa romana construída entre o final do século I a.C. e o início do século I d.C. A tradição relacionou a propriedade ao poeta romano Catulo, que escreveu sobre Sirmione, embora não exista comprovação de que aquela residência específica tenha pertencido a ele.

Com a queda do Império Romano, a posição defensiva da península continuou sendo importante. Sirmione atravessou o período lombardo e a Idade Média até passar para o domínio da família Della Scala, os mesmos senhores de Verona responsáveis por várias fortalezas da região.

Foi nesse contexto que surgiu o castelo que hoje recebe os visitantes.

O Castello Scaligero

O Castello Scaligero, também chamado de Rocca Scaligera di Sirmione, foi construído depois da metade do século XIV pela família Della Scala.

Entre aproximadamente 1360 e 1380, durante os governos de Cansignorio e Antonio II della Scala, a fortaleza foi criada para defender Sirmione e integrar a rede de proteção dos territórios controlados por Verona. Direção Regional dos Museus da Lombardia

Sua arquitetura reúne vários elementos típicos das fortificações scaligere:

  • Torres defensivas;
  • Muralhas altas;
  • Passagens de ronda;
  • Pátio central;
  • Ponte que originalmente era levadiça;
  • Merlões em forma de cauda de andorinha;
  • Torre de menagem;
  • Porto fortificado.

A torre principal possui aproximadamente 37 metros de altura e oferece uma vista panorâmica para o centro histórico, a península e o Lago di Garda.

Uma doca medieval preservada

Um dos elementos mais impressionantes do castelo é sua darsena, o pequeno porto fortificado ligado diretamente à estrutura.

Ali ficavam protegidas as embarcações das famílias Scaligeri e, posteriormente, da República de Veneza. A doca de Sirmione é considerada um raro exemplo sobrevivente de fortificação portuária medieval.

Com o passar dos séculos, a bacia foi sendo preenchida por sedimentos até perder sua água. Durante as restaurações iniciadas em 1919, ela foi escavada e voltou a receber as águas do lago. Depois de uma nova intervenção, a área foi aberta ao público em 2018. História da doca do castelo

É justamente a presença dessa doca que faz o castelo parecer nascer da água.

As mudanças de domínio

O domínio dos Della Scala terminou em 1387, quando Gian Galeazzo Visconti, duque de Milão, ocupou Verona e seus territórios.

Sirmione permaneceu sob o controle dos Visconti até 1404. No ano seguinte, passou para a República de Veneza, permanecendo ligada ao governo veneziano até 1797.

Depois disso, o território passou pelo domínio francês e, posteriormente, austríaco, até ser anexado ao Reino da Itália em 1861.

Ao longo dos séculos, o castelo perdeu sua função militar e foi utilizado como depósito de armas, quartel, sede de repartições municipais, correio, alojamento dos Carabinieri e até pequena prisão. Sua aparência atual também é resultado das restaurações iniciadas no começo do século XX.

Muito além do castelo

O castelo é a primeira grande surpresa, mas atravessá-lo revela a verdadeira dimensão de Sirmione.

O centro histórico é formado por ruas estreitas, construções antigas, restaurantes, pequenas lojas, jardins e passagens que terminam diante do lago. Em alguns pontos, basta entrar em uma rua lateral para encontrar uma vista completamente diferente da água.

Foi isso que mais me encantou: o lago reaparecia entre uma casa e outra, no final de uma ruazinha, ao lado de um restaurante ou atrás de um pequeno muro.

Sirmione não parece apenas uma cidade com um castelo. Todo o conjunto transmite a sensação de uma antiga vila protegida pela fortaleza e isolada sobre as águas.

Como chegar

De carro

Sirmione pode ser alcançada pela autoestrada A4, utilizando a saída de Sirmione, ou pela estrada regional SR11.

O centro histórico é predominantemente pedonal e possui controle de acesso. Quem chega de carro deve estacionar antes da entrada da vila.

O principal estacionamento indicado pelo portal oficial é o Parcheggio Monte Baldo, próximo ao centro histórico. Em períodos de grande movimento, vale verificar a disponibilidade pelo serviço SirmioPark antes de seguir até a extremidade da península. Estacionamentos em Sirmione

De trem

Sirmione não possui uma estação ferroviária própria.

As estações mais convenientes são:

  • Desenzano del Garda–Sirmione;
  • Peschiera del Garda.

A partir delas, é possível continuar de ônibus, táxi ou, dependendo da estação e da época, utilizar as conexões de barco pelo Lago di Garda.

De barco

Sirmione também pode ser alcançada pelos barcos que conectam diferentes cidades do Lago di Garda.

Além de evitar o trânsito, chegar pela água permite observar a península e o castelo por outro ângulo. Os horários variam conforme a estação do ano e devem ser consultados com antecedência.

O que ver e fazer

1. Castello Scaligero

O principal cartão-postal e a entrada monumental do centro histórico.

Durante a visita interna, é possível conhecer os pátios, caminhar pelas passagens de ronda e subir até a torre principal. Do alto, fica mais fácil compreender a geografia de Sirmione: uma estreita faixa de terra avançando sobre o Lago di Garda.

Os horários e valores podem mudar conforme a época. Atualmente, o site oficial informa ingresso inteiro de €10 e fechamento às segundas-feiras, mas é importante consultar as informações atualizadas antes da visita. Informações oficiais do Castello Scaligero

2. Centro histórico

Depois do castelo, permita-se caminhar sem pressa.

O centro é relativamente pequeno, mas cheio de becos, fachadas, lojas, restaurantes e vistas para o lago. Algumas das melhores descobertas acontecem justamente quando saímos da rua principal e entramos nas passagens laterais.

Foi o que fizemos naquela primeira visita: percorremos praticamente todas as ruas que encontramos, observando as casas e procurando novos ângulos do lago.

3. A famosa buganvília

Uma das imagens mais conhecidas de Sirmione é a fachada coberta por flores roxas.

A planta não é um ipê, como pode parecer para nós, brasileiros. É uma buganvília, também chamada de primavera no Brasil: uma trepadeira de clima quente, muito comum em cidades mediterrâneas.

Quando fomos, em novembro, ela ainda conservava muitas flores. O contraste entre o roxo intenso, a fachada antiga e as ruas de pedra formava uma daquelas cenas que parecem criadas especialmente para uma fotografia.

A buganvília de Sirmione tornou-se um dos cantos mais fotografados do centro histórico e aparece inclusive nos materiais do portal turístico oficial da cidade. Centro histórico de Sirmione

4. Spiaggia delle Muse

Próxima ao Castello Scaligero, a Spiaggia delle Muse é uma pequena praia cercada pelas muralhas e construções do centro histórico.

Provavelmente foi essa a “prainha dentro da cidade” que conhecemos durante o passeio. Mesmo em novembro, quando estava frio demais para entrar na água, foi especial caminhar até ali e observar o castelo e o lago por outra perspectiva.

5. Igreja de Santa Maria Maggiore

Construída no século XV, a igreja fica próxima ao castelo e pode passar despercebida entre as ruas do centro.

Seu interior conserva afrescos e elementos de diferentes períodos. É uma visita rápida e fácil de incluir durante a caminhada.

6. Igreja de San Pietro in Mavino

Localizada em uma área mais alta e tranquila da península, cercada por oliveiras, é considerada a igreja mais antiga de Sirmione. Suas origens remontam ao século VIII, embora o edifício tenha passado por transformações posteriores.

O caminho até ela também permite conhecer uma parte mais silenciosa da cidade, afastada das ruas mais comerciais. Dez lugares para conhecer em Sirmione

7. Grotte di Catullo

Na extremidade norte da península estão as ruínas de uma das maiores villas romanas do norte da Itália.

Além da importância arqueológica, o local oferece amplas vistas para o Lago di Garda. É uma visita que merece tempo e pode ser combinada com o museu arqueológico.

8. Jamaica Beach

Abaixo das Grotte di Catullo está a Jamaica Beach, conhecida por suas grandes placas de pedra clara junto à água.

O acesso é feito a pé por um caminho com descida entre oliveiras. Dependendo do nível do lago e das condições climáticas, algumas áreas podem ficar molhadas ou menos acessíveis.

9. Lido delle Bionde

Outra praia charmosa da península, localizada entre o centro e as Grotte di Catullo.

O nome deriva de uma antiga palavra germânica relacionada a um local cercado. A praia fica entre oliveiras, vegetação e as águas do lago, sendo uma boa parada durante o percurso até a ponta da península.

10. Terme di Sirmione

Sirmione também é conhecida por suas águas termais sulfurosas, provenientes da fonte Bojola.

Para quem deseja permanecer mais tempo, a cidade possui centros termais e espaços de bem-estar. É outra experiência possível além do passeio histórico.

Roteiro sugerido

Um roteiro completo e confortável pode seguir esta ordem:

  1. Estacione fora do centro histórico;
  2. Caminhe até o Castello Scaligero;
  3. Visite o interior e a torre do castelo;
  4. Entre no centro histórico;
  5. Percorra as ruas próximas à Piazza Carducci;
  6. Procure a famosa fachada com a buganvília;
  7. Visite a Igreja de Santa Maria Maggiore;
  8. Faça uma pausa para almoçar diante do lago;
  9. Caminhe até a Spiaggia delle Muse;
  10. Siga pelas ruas e margens da península;
  11. Vá até a Igreja de San Pietro in Mavino;
  12. Se houver tempo, visite as Grotte di Catullo;
  13. Termine na Jamaica Beach ou no Lido delle Bionde;
  14. Retorne ao centro por ruas diferentes.

Em um único dia é possível conhecer bastante, mas visitar o castelo e as Grotte di Catullo com calma exige organização. Se a intenção for apenas caminhar, almoçar e aproveitar a paisagem, o roteiro fica mais leve.

Nossa experiência

Chegamos de carro e passamos o dia inteiro em Sirmione.

Novembro já anunciava o inverno, e o frio parecia ainda mais intenso por causa da umidade e do vento vindo do lago. Era meu primeiro outono europeu e eu ainda estava descobrindo como as paisagens mudavam com as estações.

Mesmo assim, o frio não diminuiu o encanto do passeio.

Atravessar a entrada da cidade junto ao castelo foi como entrar em um cenário completamente diferente. O que imaginávamos ser apenas uma visita a uma fortaleza transformou-se em um dia inteiro explorando uma cidade medieval cercada pela água.

Caminhamos por praticamente todas as ruas que encontramos. Algumas eram mais movimentadas, cheias de comércio e restaurantes; outras eram pequenas passagens silenciosas que terminavam diante do Lago di Garda.

Almoçamos em um restaurante próximo ao lago, já dentro dos limites do centro histórico. Mais do que lembrar exatamente o prato, ficou a memória de estar sentada dentro daquela vila, cercada por construções antigas e tão próxima da água.

Também caminhamos até uma das pequenas praias. Não era época de banho e o frio deixava isso muito claro, mas estar em uma praia dentro de uma cidade medieval parecia algo completamente diferente.

Outro detalhe que ficou marcado foi a enorme buganvília roxa sobre uma casa de esquina. Eu não sabia exatamente qual era a planta e, por sua forma, cheguei a pensar em um ipê-roxo. Na realidade, era uma trepadeira — e ainda estava florida apesar da proximidade do inverno.

A cada nova rua, encontrávamos outro enquadramento do lago. Essa talvez seja uma das partes mais bonitas de Sirmione: a água não aparece apenas em um ponto turístico específico. Ela acompanha toda a cidade.

Saímos com a sensação de que o lugar fazia jus à fama. Sirmione vale o hype porque o castelo não está isolado em meio à cidade: ele abre as portas para uma experiência inteira.

Assim como Venezia, Verona e Ferrara, voltamos outras vezes. E ainda voltaríamos novamente.

Com cachorro

Sirmione pode ser conhecida a pé com cachorro, mas nos meses mais movimentados o centro histórico fica bastante cheio.

O portal oficial indica algumas praias que permitem cães, incluindo a Spiaggia delle Muse, próxima ao castelo, além de Punta Grò e Brema. As regras podem variar de acordo com a área e a estação, por isso vale conferir antes da visita. Sirmione com cachorro

Leve água, saquinhos, guia e, nos dias quentes, atenção ao piso aquecido e à falta de sombra em algumas partes do percurso.

Dicas úteis

  • Vá cedo, principalmente na primavera e no verão;
  • Use calçados confortáveis para caminhar sobre pedras e pisos irregulares;
  • No outono e inverno, leve uma camada extra de roupa por causa do vento e da umidade do lago;
  • Não tente entrar de carro no centro histórico sem autorização;
  • Reserve tempo para caminhar sem um roteiro rígido;
  • Confira os horários do castelo e das Grotte di Catullo;
  • Se quiser visitar os dois monumentos, verifique o bilhete combinado;
  • Não deixe de entrar nas ruas laterais;
  • Observe a previsão do tempo antes de visitar as praias;
  • No verão, leve água, protetor solar e chapéu;
  • Se possível, fique até o final da tarde, quando muitos visitantes de um dia começam a ir embora.

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